Um encontro de dezenas de argentinos, brasileiros, espanhóis, colombianos, ingleses e americanos em meados do ano poderia ser sobre a Copa, mas não foi. A começar pela presença dos americanos. Mas também pelo motivo: mais de 20.000 professores de diversas nacionalidades se reuniram na última ISTE (International Society for Technology in Education) Conference, evento anual e itinerante promovido pela organização  para discutir o uso da tecnologia na educação com o lema: “Seja um pioneiro digital”. Mas como?

Convidando os alunos a analisar os dados gerados pelas redes sociais dentro da aula de ciências foi uma das sugestões de um grupo de pesquisadores mexicanos. Afinal, assim seria possível validar hipóteses usando plataformas que fazem parte do dia a dia das crianças e adolescentes. Apresentando um vídeo de uma criança descendo um escorregador e desafiar os alunos a perceberem toda a matemática que existe naquele cenário. Ou, quem sabe, colando documentos com QR Codes pelas paredes das escolas como um passo a passo para que o aluno aprenda a resolver problemas, dentro da lógica da PBL (Aprendizagem Baseada em Problemas), como apresentou um grupo de pesquisadores de San Francisco (EUA).

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A ISTE Conference foi um espaço para compartilhamento de boas práticas de professores espalhados pelo mundo e interessados em levar os alunos para aulas mais dinâmicas, interativas e compatíveis com suas realidades – as mais distintas possível. Houve espaço, portanto, para aprendermos o quanto uma plataforma aberta, a Khan Academy, pode impactar positivamente o aprendizado de matemática na Guatemala. Ou mesmo a importância de medir, através de testes, a proficiência dos professores no uso da tecnologia em todos os distritos norte-americanos – em um dos países mais desenvolvidos do mundo, (pasme!) ainda há um longo percurso para garantir a introdução da tecnologia na sala de aula.

Há sempre demandas novas e, principalmente, caminhos diferentes a serem trilhados pelos professores

O grande combustível para todos os congressistas foi a inspiração – sentir-se tocado pela dedicação e motivação de professores de perfis diversos, mas sempre apaixonados pelo ‘aprender’. Não por acaso o palestra de fechamento (realizada em um espaço para mais de 800 assentos!), foi com a professora Nádia Lopez, protagonista do TED “Por que abrir uma escola? Para fechar uma prisão” e seu relato sobre como o contato precoce com a tecnologia foi determinante para sua vida profissional na educação.

Ferramentas

As ideias que foram apresentadas nas mais de 1.200 atividades realizadas nos quatro dias de evento também dividiram espaço com a prática. Além de um centro de convenções para exposição de centenas de soluções de edtech, muitas empresas se dedicaram a ensinar, em palestras, as melhores práticas em sala de aula para o uso de seus produtos – a maioria, gratuitos. Foi o caso, por exemplo, de encontros sobre como garantir feedbacks (retornos avaliativos) efetivos aos alunos usando o Google Docs ou de como elaborar avaliações utilizando o Microsoft Forms.

Google, Apple e Microsoft, inclusive, foram os maiores patrocinadores do encontro. Os três oferecem recursos gratuitos para sala de aula motivados com a possibilidade de engajar futuros usuários (e consumidores) desde a infância. Além delas, a ISTE Conference reservou também um amplo espaço às empresas que se dedicam à segurança da informação — muitas delas sem histórico no meio educacional. A novidade se dá em meio à crise de privacidade de dados gerada pelo Facebook no primeiro semestre deste ano e que despertou a preocupação em inúmeros pais e gestores, abrindo o leque para este novo mercado.

Tecnologia: por onde começar?

Nem mesmo um evento tão intenso é capaz de apontar essa resposta. E o motivo justifica a própria existência da ISTE. A organização surgiu em meados da década de 70 com a instigante missão de entender o impacto do aparecimento do computador na sala de aula e agora, em 2018, já discute os usos de realidade aumentada e inteligência artificial na educação. Ou seja, há sempre demandas novas e, principalmente, caminhos diferentes a serem trilhados pelos professores. Diante desse desafio cada vez mais latente, a organização se coloca como um guia para professores, conferindo selos de qualidade a produtos, lançando livros, mediando fóruns, divulgando webinars e apresentando soluções e práticas interessantes para perfis diversos de professores, seja ele aprendiz, líder, cidadão, colaborador, designer, facilitador ou analista.

Na prática, as escolas públicas norte-americanas, organizadas em distritos educacionais, parecem tomar como ponto de partida para a tecnologia a escolha de uma plataforma de sala de aula digital onde concentram a realização e distribuição de tarefas e, a partir disso, definem as ferramentas que se integram à ela e que melhor se adequem ao currículo proposto. Há, portanto, uma preocupação grande com o estímulo à leitura e aprimoramento da escrita — plataformas que corrigem automaticamente questões discursivas com inteligência artificial ou que permitem o feedback de textos através de áudio e vídeo dos professores são algumas delas. Os vídeos, por sua vez, são inescapáveis para quem busca o maior engajamento dos alunos. São utilizados, portanto, para a apresentação de trabalhos, para a interação durante o para casa ou para explicar as questões erradas em uma avaliação. Os professores contam ainda com um enorme portfólio de ferramentas gratuitas para aumentar a interatividade entre os alunos e a rapidez do feedback — pesquisas, quizzes, enquetes, mapas de palavras, gráficos dinâmicos, correções automáticas e trabalhos colaborativos online apoiam a exibição de conteúdos que devem envolver os alunos do início ao fim.

Foi inspirador?